Caro leitor, venho por meio desse medíocre texto, comunicar uma experiência que vivenciei há algumas horas atrás, dia dezenove do mês de maio do ano de dois mil e sete.
Tudo começou quando há uma semana atrás, algumas amigas, colegas de sala, me convidaram a ir à sua igreja, pois haveria um evento especial para celebrar o “dia do amigo”.
Pois bem. Aceitei o convite, mas, fui enfático em dizer que ficaria do lado de fora da igreja, esperando que o evento terminasse e elas saíssem para que pudéssemos ter um pequeno momento de confraternização.
Dito e feito. Meia hora antes de terminar o evento, lá estava eu esperando pelas minhas amigas do lado de fora da igreja.
Cheguei e sentei na escadaria que dava para a entrada do templo e lá fiquei esperando mais quarenta e cinco minutos até que o evento acabasse.
Durante esse tempo de espera, e o tempo que se seguiu após o término do evento, pude presenciar e vivenciar vários fatos que ficariam a martelar em minha mente durante todo o trajeto de volta para casa. São essas experiências e fatos que venho agora compartilhar com você, leitor.
Comecemos falando sobre a forma que a igreja estava ornamentada para o evento: tochas estavam dispostas em torno dos dois lados da escadaria, de forma a lembrar a entrada de um motel. Havia também bexigas por toda a entrada, arrumadas e dispostas de forma a enfeitar a fachada e o hall de entrada do edifício. Dentro do hall, havia três barraquinhas: uma vendendo camisetas com slogans cristãos baratos como “Jesus” ou “Deus é amor”. Na segunda barraca havia pipoca que seria distribuída gratuitamente após o término do culto. Na terceira e última barraca havia vários refrigerantes que, supus, seriam distribuídos juntamente com a pipoca, após o término do encontro.
Os quarenta e cinco minutos que tive de esperar até o término da missa evangélica foram longos e chatos. O clímax desse período de espera foi quando o culto acabou e as pessoas começaram a sair da nave do templo.
Achei engraçado o som que saia da nave e que uma caixa de som posta do lado de fora transmitia para qualquer um que caminhasse pela rua: não reparei nas letras, mas, os estilos variaram desde o reggae (o mesmo que os usuários de maconha gostam de ouvir quando estão fumando um “cigarrinho da paz”) até o rock pesado (que faz jus a bandas de black metal como o Slayer, que faz apologia ao satanismo e ao neonazismo), passando pelo dance (o mesmo que embala as noitadas à fora em raves e boates e onde os freqüentadores deliram enquanto dançam e sentem o efeito do ecstasy sobre o seu organismo) e não faltando o pop (estilo que consagrou vários artistas que faziam uso freqüente de “coca” e que os próprios evangélicos os condenam por fazer pacto com o diabo, se é que isso existe).
Mas, por que havia uma caixa de som disposta para a rua? Será que seria para que “ovelhas desgarradas”, como eu, se sentissem atraídas pelo som e entrassem no “templo do interesse”? E por que desses estilos musicais que levam os jovens ao delírio estarem sendo tocados ali, na casa de Deus? Será que seria parte de uma estratégia pertencente a uma entidade maior (Deus!?) que tem por finalidade manter esses jovens na congregação?
As roupas que os jovens usavam também são dignas de nota: meninas usando mini-saias, tamanco alto, … muito atraentes e bem arrumadas, por sinal. Os rapazes não ficavam para trás: usando tênis de marca e camisetas de grife. Muito interessante, mas, apesar daquilo ser uma igreja, as pessoas que ali se encontravam estavam vestidas, aparentemente, para ir a uma casa noturna (que por sinal, a igreja é enfática em condenar).
O comportamento desses jovens era um tanto cômico: meninas distribuindo olhares penetrantes, apontando e cochichando sobre meninos e, os rapazes, “chegando nas meninas”.
Comecei a gostar daquele lugar: era uma boate em que as pessoas que freqüentassem tinham o passaporte para o paraíso assegurado.
Logo a música parou e um locutor começou a fazer anúncios pela caixa de som: “camisetas do Smilinguido por trintão”… “refrigerante por um real”…De repente, de boate, aquilo pareceu virar uma feira. Lembrei da passagem bíblica em que Jesus expussou os mercadores do templo…dois mil anos depois, o cadáver dele deve estar se remexendo na tumba pelo fato de as pessoas estarem fazendo da casa de seu Pai uma feira medieval em pleno século vinte e um.
Bom, conversa vai, conversa vem e eu conheci um rapaz interessante. Seu nome era Ricardo. Cursava o segundo ano de jornalismo em uma faculdade particular da cidade. Me disse que era freqüentador assíduo daquela igreja. Disse também que lutava vale-tudo e que havia quebrado o nariz de um cara “folgado” esses dias na rua (soldado de Cristo!?). Mas, o ponto que mais chamou atenção em nossa conversa foi quando ele me perguntou sobre a minha religião. Eu respondi que era ateu. Depois de minha resposta, Ricardo estatelou os olhos e ficou a me olhar como uma nova atração em um zoológico qualquer. Passado esse momento de transe, ele me perguntou se eu não tinha medo de ir para o inferno. Engraçada essa pergunta. Eu lhe disse que não acreditava em Deus e ele me perguntou se eu não tinha medo de ir para o inferno? Por acaso, devo eu acreditar no inferno? Se não acredito em Deus, por que temer o purgatório? Quanto a meu novo amigo: será que ele acreditaa em Deus porque gosta de Deus e busca uma evolução pessoal ou será que ele acredita em Deus porque tem medo do inferno?
Acabado o papo, peguei o caminho rumo a minha casa e fui embora pensando sobre como as verdades das pessoas se escondem atrás de mentiras e como somos todos os dias castrados e crucificados por um sistema que valoriza a aparência em detrimento da essência.
20/05/07, 1:25 da manha.